O Simbolismo do Uroboro e seu Significado na Psique Humana

O simbolismo do uroboro e seu significado na psique humana sob a ótica de Carl Gustav Jung

Símbolos são bastante usados pelo inconsciente na psique humana, eles representam alguma outra coisa e são agentes de transformação, uma vez que sua manifestação provoca grande comoção ao sujeito, o que por si só já pode ser capaz de mobilizar e atuar na energia psíquica (apesar de só isso muitas vezes não ser transformador por si só, sendo necessária também, a apreensão e compreensão por parte do sujeito). Eles podem ser parcialmente ou totalmente inconscientes e quanto mais forem inconsciente, maior poder de transformação terão. Eles não são elaborados pelo pensamento e nem podem ser completamente explicados em conceitos racionais, muitas vezes só podem ser apreendidos de forma intuitiva ou emocional, isso porque transcende a compreensão intelectual.

Segundo Jung, os símbolos atuam como transformadores, conduzindo a libido de uma forma “inferior” para uma forma superior. E acrescenta ainda que o símbolo “deveria ser compreendido como uma ideia intuitiva que ainda não pode ser formulada de outra, ou de uma melhor forma” (CW 15, parág. 105). Jung deixa claro que o símbolo mobiliza tanto, que faz com que quem o percebe, sinta que significa mais do que parece. E o símbolo tem essa característica de proporcionar muitas vezes emoção, sensação de importância, mas muitas vezes também, incapacidade de entender completamente seu significado. O que não é muito estranho, já que remete a algo inconsciente e o próprio inconsciente nunca poderá ser totalmente conscientizado.

Os aspectos inconscientes aparecem buscando proporcionar o equilíbrio e o crescimento do indivíduo, através da conscientização de seus conteúdos sombrios, do diálogo com seus outros conteúdos inconscientes, da compensação de aspectos e atitudes unilaterais e do equilíbrio entre os opostos. Diante disso, a função do símbolo, é atrair a atenção da pessoa para uma outra posição que, quando compreendida, tem o poder de transformação e ampliação da personalidade, além de solucionar aquele conflito específico que motivou o aparecimento do símbolo.

Os símbolos se expressam por analogias e são retratos da realidade psíquica, não sendo óbvio o seu conteúdo ou significado, porque é totalmente singular e representa aquilo para aquele sujeito naquele momento. Por isso não são úteis os dicionários de símbolos, que funcionam de forma geral.

Porém, apesar de se expressarem em termos únicos e individuais, utilizam-se de imagens universais, o que pode justificar o aparecimento das mesmas imagens em muitas pessoas diferentes. A interpretação das mesmas imagens, contudo, deve ser feita de acordo com as diferentes realidades psíquicas que as trazem, bem como sua história de vida, momento atual, época e cultura.

De qualquer forma, é importante observar que tais imagens aparecem em diferentes pessoas e em diferentes épocas, mostrando a atuação do inconsciente coletivo e denunciando a presença de arquétipos nesse processo. Isso ocorre porque os arquétipos não podem ser diretamente apreendidos e encontram uma maneira de se expressar através dos símbolos ou dos complexos.                                                                                                                          

É importante, diferenciar símbolo de sinal, signo e alegoria, pois eles podem ser facilmente confundidos. O signo não representa algo, mas simplesmente o indica, como por exemplo, um rótulo em uma garrafa, que indica o que há em seu conteúdo. Já o sinal, também implica uma reação na pessoa, mas diferentemente do símbolo, ele é inteiramente consciente. Um exemplo de sinal são os utilizados no trânsito. E alegoria é a expressão consciente de uma ideia através de uma imagem, quadro, pessoa ou outro “objeto”, mas que geralmente já é familiar.

O uroboro é representado por uma serpente mordendo a própria cauda, em forma de círculo, tal como na imagem abaixo.

Uroboro

 utoboro

Diante dessa imagem, é possível ver que ela representa o todo, a ausência de opostos, uma vez que não se pode enxergar o ponto onde começa ou termina, por ser um movimento continuado. Com isso, ela é considerada ao mesmo tempo “homem e mulher, procriando e concebendo, devorando e gerando, ativo e passivo, acima e embaixo” (Neumann, 1954).

O símbolo do uroboro então, sugere um estado primitivo e por isso é considerado por psicólogos analíticos como representando um estágio precoce do desenvolvimento da personalidade. Aquele primeiro estágio da vida, em que o bebê ainda não desenvolveu identidade de gênero, nem pulsão de vida ou de morte e que, por isso, ainda não se diferenciou da figura da mãe e considera a ambos como uma só coisa. Esta fase é considerada urobórica.

Quando se pensa em uroboro, é fácil lembrar do círculo, pela semelhança no formato geométrico. O símbolo do círculo, inclusive, possui significado análogo, pois representa a perfeição, aquilo que começa e acaba em si mesmo, a unidade, o infinito e o absoluto    . Ele pode ser considerado um símbolo mágico e utilizado em muitas práticas de magia e em rituais de iniciação. Utilizado nos rituais de iniciação, o símbolo do círculo pode ser ainda mais comparado ao uroboro, por este ser o próprio símbolo dessa iniciação.

O círculo é um símbolo universal com muitos significados. Representa noções de totalidade, inteireza, perfeição,o Self, o infinito, eternidade, todo movimento cíclico, Deus. Simboliza a alma e o Si-Mesmo, encontrando-se vinculado ao simbolismo da mandala e da eternidade posto que é o Alfa e o Ômega, o início e o fim da vida humana, é a uroboros e o símbolo da meta a ser alcançada, a conjunctio, a união dos opostos na psique. Os círculos mágicos costumam funcionar como um temenos, um território pertencente a Deus, um espaço delimitado, um lugar redondo, reservado para um propósito arquetípico e numinoso que é utilizado para concentrar o que está dentro e excluir o que está fora. É a imagem símbolo de uma realidade psíquica interior do homem. Para o Mestre Eckhart, Deus é “uma esfera espiritual infinita, cujo centro e circunferência estão em toda parte”. (ALVES, [s.d.])

Como foi exposto acima, o inconsciente é capaz de trazer símbolos através de sonhos, arte, visões e outras experiências, por diferentes motivos, mas sempre buscando a autorregulação da psique. Isso significa que, de acordo com o momento de vida e atitude consciente que o indivíduo esteja tendo, o inconsciente pode sentir a necessidade de mostrar outro ângulo, indicar um novo caminho ou atitude ou ainda compensar uma situação quando o sujeito encontra-se numa atitude unilateral. Pode também alertar a pessoa antes de uma situação perigosa, uma vez que o inconsciente possui caráter atemporal.

Quando o inconsciente traz o símbolo do uroboro à tona, é importante analisar a situação e a pessoa em questão, mas de acordo com o significado já mencionado, convém refletir, entre outras coisas, a respeito da independência do indivíduo em relação à figura materna, ou ainda na sua atitude do momento, ou seja, mesmo que ele tenha desenvolvido normalmente sua personalidade, pode estar passando por um momento tão difícil a ponto de ter regredido sua personalidade a um estágio em que pudesse encontrar tranqüilidade e proteção, e que conseguisse dar conta.

Crianças podem trazer este símbolo em seus desenhos e isso pode representar dificuldades externas ou internas de prosseguir com seu desenvolvimento. Internas quando pode haver resistência a sair daquele papel de extremo conforto e amor absoluto dados ao bebê, ou ainda para representar rejeição, ciúme ou algum outro tipo de sentimento diante de situações novas de vida. Em situações externas pode aparecer, entre outros exemplos, devido a pais super protetores que realmente dificultam a passagem da criança para formas mais evoluídas de desenvolvimento da personalidade. É importante frisar que as situações expostas acima são apenas exemplos e não definições, pois é impossível fechar o significado e aparecimento de um símbolo em apenas algumas poucas situações. E principalmente porque cada caso deve ser avaliado de forma única e singular, como já explicitado anteriormente. Analisar o aparecimento do símbolo pode ajudar o sujeito a conscientizar tendências e atitudes e se tornar mais capaz de realizar as mudanças e transformações necessárias para o maior desenvolvimento da psique. Fazer dessa prática um hábito, seja em análise com um psicólogo ou simplesmente por autoanálise e reflexão de si, ajuda a pessoa a estar sempre crítica a seus pensamentos, sentimentos e atitudes, adquirindo com isso maior autoconhecimento e desenvolvimento, trilhando com isso o caminho da individuação.

Por Rafaella Santos Silveira

Psicóloga

CRP: 05/40907

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