Qual a Importância do Limite na Vida de Seus Filhos?

“Educai as crianças, para que não seja necessário punir os adultos.”

Pitágoras

Sem-limites      Essa frase de Pitágoras consegue resumir tudo que provavelmente esse texto deseja abordar. Isso porque ela mostra como é essencial que as crianças sejam bem preparadas para que possam se tornar adultos seguros, fortes e éticos. E quando se fala em preparar, muitos aspectos estão envolvidos, pois se fala na educação como um todo, desde os conteúdos passados pela escola, até os ensinamentos de caráter, da lei, da disciplina e também o desenvolvimento emocional, como o carinho, a atenção e o respeito passados pela família.

No passado havia uma grande distância entre pais e filhos, pois os primeiros deviam ser vistos com tanto respeito que acabava não sobrando espaço para uma aproximação afetiva entre eles, devido a tanta hierarquia. Dessa forma, a rigidez imperava e humilhações eram comuns na hora de “educar”, com castigos e agressões excessivas e desvinculadas de qualquer tipo de explicação e carinho. Isso contribuía para a criação de muitos adultos traumatizados que acabavam reproduzindo com seus filhos, tudo que haviam sofrido com seus pais, não por maldade, mas porque acreditavam ser esta a maneira certa. Com isso, o círculo vicioso se instalava.

À medida que o tempo foi passando, a sociedade foi se abrindo mais, deixando para traz essa distância e rigidez, aceitando melhor temas polêmicos e entendendo a importância do amor e do respeito mútuo entre pais e filhos, enxergado que estes também têm voz sobre suas próprias vidas e que também ensinam aos pais. Essa mudança de paradigma foi causando maior abertura e proximidade entre eles.

Porém, há um perigo aí, pois muitas pessoas que sofreram com pais rígidos, podem se tornar o oposto quando se tornam pais, sendo totalmente liberais e não enxergando a necessidade e a importância de colocar limites na vida dos filhos. Esses pais não enxergam o lado positivo dos limites, pois sempre só o viveram de forma negativa, muitas vezes resolvendo dar aos filhos o que não tiveram e não o que eles realmente precisam. Geralmente não fazem isso de forma consciente e acham que estão fazendo o melhor para os filhos. Porém, crescer sem limites pode ser tão ruim quanto crescer cercado deles e crianças que ficam soltas demais tendem a se perder e a ficar sem referência. Com isso se chega naquela conhecida frase de que tudo em excesso é ruim. E também é possível entender que há uma interpretação errada do tema “limites”, por muitas vezes só ser visto como sendo algo ruim.

Pais que foram muito reprimidos em sua infância, geralmente vivem num conflito entre reproduzir, mesmo que inconscientemente, a repressão recebida ou serem totalmente liberais. Muitas vezes agem tentando resolver suas próprias frustrações através da infância dos filhos (…). Quando a infância dos pais está projetada e transferida para a infância dos filhos é impossível estabelecer limites e educar de forma sadia. (MARIANA, s.d.)

Muitas pessoas costumam interpretar o limite como algo ruim, negativo e repressor, sem perceberem que ele também pode ser esclarecedor, orientador e fortificador. Isso porque, na medida certa, transforma crianças em adultos que sabem lidar com frustrações e com situações difíceis da vida. Os limites só são negativos e repressores quando são colocados de forma rígida, autoritária e sem a explicação do porquê. Essa explicação e a forma com que o limite é colocado são fundamentais para a criança e o adolescente entenderem de forma correta o que está acontecendo ali. Quando os pais explicam as conseqüências de tal ato, o porquê do NÃO e fazem isso com calma, carinho, seriedade e diálogo, os filhos entendem que aquilo é para o seu bem e, mesmo que não gostem, aceitam melhor. Assim se consegue não só respeitar os filhos e suas individualidades, mas também conquistar o respeito deles, ao invés de impor.

Com isso os pais estarão educando os filhos e ensinando várias lições ao mesmo tempo, como a importância do diálogo ao invés da ordem pura e cega, e com isso, a igualdade entre as pessoas, e como é desnecessário o mais alto da hierarquia impor algo ao mais baixo, ensinando a liderança positiva aos filhos; estarão ensinando também a já começarem a lidar com as frustrações, pois mais cedo ou mais tarde terão que passar por isso, e é muito melhor quando o fazem em casa e com os pais que lhe amam, para que não se assustem e saibam lidar quando isso acontecer lá fora, no mundo real; e também estarão mostrando o quanto amam e se importam com os filhos, uma importante sensação que influenciará sua autoestima por toda a vida.

É muito importante também, que os pais estejam sintonizados na hora de educar, planejando juntos as orientações, regras e até mesmo as punições quando forem necessárias. E principalmente, não desautorizando um ao outro, o que pode causar insegurança nos filhos sobre o que realmente é certo, e fazer com que manipulem a situação, indo a um ou a outro quando quiserem algo, sabendo que um deles irá permitir. Além disso, pode também causar alienação parental dentro da própria casa, nos casos em que somente um dos pais é sempre o que educa e o outro sempre o que deixa tudo. Aquele que educa passa a ser visto como carrasco e quem não ama os filhos, e o que permite tudo passa a ser visto como o bonzinho e amigo. Isso não é bom nem para o relacionamento do casal, pois com certeza gera brigas; e nem para o relacionamento em família, pois prejudica o vínculo dos pais com os filhos e passa a mensagem errada a eles, que não terão o que é certo e o que é errado esclarecidos em suas mentes, além de estarem aprendendo a arte de manipular e nada de limites.

Outro perigo semelhante a esse é a falta de assertividade dos pais que, ora dizem SIM para uma determinada coisa, e ora dizem NÃO para aquela mesma coisa. Essa mudança de ideia faz com que os filhos não consigam formar um padrão em suas cabeças, e nunca consigam entender porque uma hora podem e outra hora não podem fazer algo, pois não depende daquilo e sim do momento dos pais, que podem dizer SIM ou NÃO, dependendo de seu momento atual e não da coisa em si. Por isso, para dar limites também é importante ser assertivo, para que uma boa estrutura seja formada na cabeça das crianças.

Pais que dão tudo e permitem tudo, nem sempre o fazem por amar demais, muitas vezes é porque chegam cansados do trabalho e não querem ter mais trabalho, preferindo ceder para que possa ter seu momento de descanso. Outras vezes é porque não conseguem dizer NÃO por pena, por não quererem ver os filhos sofrendo. Pode ser ainda, para que formem uma imagem de bonzinho e ganhem com isso o amor dos filhos, entre outros exemplos. Mas, como já foi visto, nenhuma dessas ações são positivas, pois além de não ensinarem limites aos filhos, criando pessoas indisciplinadas e arredias às determinações dos adultos e autoridades, ainda passam a mensagem subliminar de que os filhos não são amados e de que não se importam com eles a ponto de deixarem que façam o que quiserem, até o que lhes fará mal. Isso gera insegurança nos filhos, que não se sentem amados e ficam perdidos por não terem claras as orientações que os pais deveriam dar através de diálogos, exemplos e limites.

Crianças que sentem essa falta de dedicação e amor, bem como a insegurança consequente disso, passam a ter maus comportamentos para chamar a atenção dos pais, é como se inconscientemente elas sentissem que precisam disso para ver se, pelo menos assim, eles lhes dão atenção e limites, lhes mostrando o que é certo e o que é errado. O problema é que geralmente eles fazem isso de maneira negativa, pois sem perceberem a carência e o pedido subliminar na má ação da criança, acabam agindo de forma agressiva, brigando e reprimindo-a. E ela, apesar de ter conseguido seu objetivo, também não fica feliz com isso. E à medida que isso vai se repetindo, ela pode ir criando raiva por ser sempre reprimida e se rebelar, tornando-se um adolescente problema.

Diferente disso, os pais que normalmente dão atenção aos filhos, tendo o momento para interagirem juntos de forma lúdica, o momento para fazerem os deveres juntos, de ver o caderno e como andam as notas, de repreenderem na hora certa, etc, criam crianças seguras do amor dos pais, e que, por isso, não precisam ter maus comportamentos para que tenham a atenção (negativa) deles, pois já as têm em momentos mais sadios. Dessa forma, elas não irão solicitar-lhes a atenção 24h por dia, fazendo com que consigam ter o momento de descanso que todos gostam e precisam, e mais importante ainda, terão menos tendência a se tornarem crianças, adolescentes e adultos problemas, pois terão aprendido o certo e o errado e não precisarão fazer o errado para terem atenção. Além disso, acontecendo dessa maneira, os filhos entendem que os pais se preocupam e os amam, passando a confiar nesses pais, desenvolvendo um bom vínculo com eles e, por conseqüência, com as outras pessoas, conseguindo desenvolver a confiança nos outros e retornando aos pais em momentos de dificuldades, os tendo como conselheiros.

 

O filho precisa ser convencido de que é amado e a disciplina é uma grande ferramenta. Estabelecendo regras, rotinas e desenvolvendo um vínculo saudável com os filhos, eles entenderão que não terão que apelar para revolta no sentido de chamar atenção e ganhar afeto. Dessa forma, não se sentirão ainda tentados a usar de meios autodestrutivos para chamar a atenção, tais como os vícios de modo geral. A confiança, juntamente com o amor, é o elo que deve prevalecer na relação pais e filhos. (BURIASCO, 2013 Jul 30)

Diante de tudo que foi exposto, fica claro que o NÃO possui uma função muito importante na vida das crianças, pois só assim aprenderão a lidar com as frustrações, pois ninguém consegue sempre tudo que quer, e quanto melhor se aprende a lidar com isso, menos se sofre diante de situações assim. Quando a criança se torna adulto, ela tem que lidar com situações e frustrações mais sérias e importantes, e se foi ensinada a passar por isso de forma saudável e adaptativa, conseguirá transpor as dificuldades com muito mais facilidade e menos sofrimento, ao invés de ficar paralisada e deprimida diante do primeiro desafio. Além disso, se não fosse pelo NÃO, ninguém aprenderia o valor do SIM e o quanto pode ser gratificante quando se consegue uma vitória. Assim também se aprende o valor de lutar pelos objetivos.

Foi visto também, que ao contrário do que se pensa, os filhos não interpretam como amor, valorização e também não internalizam segurança e autonomia quando recebem tudo dos pais e quando são deixados livres para fazerem o que quiserem. Pelo contrário, inconscientemente interpretam tal liberdade como falta de amor, de preocupação e de dedicação dos pais, e se vêem impelidos a fazerem coisas erradas para ver se os pais lhes enxergam. Além disso, também ficam totalmente desprovidos de exemplos e referências, não conseguindo internalizar valores e comportamentos adequados e ficando facilmente influenciáveis, tal é sua sede de referências, correndo o perigo de serem influenciados por exemplos ruins.

É muito importante que os pais assumam as responsabilidades que lhes cabem e entendam o quanto suas ações podem ensinar tanto quanto, ou até mais, que seus discursos. Por isso é imprescindível que eles vigiem também, os exemplos que estarão dando aos filhos, tentando se manter sempre equilibrados para lidarem com as situações da melhor forma possível, da maneira que gostariam de ensinar aos filhos que é a certa. Os limites e valores passados possuem valor inestimável, pois será o que orientará os filhos por toda a vida, mesmo na ausência dos pais, e deles dependerá a qualidade das condutas dos mesmos. Disso dependerá se serão formados adultos seguros, confiantes, éticos, justos e independentes, que sabem o que querem e sentem-se capazes de buscarem e realizarem aquele objetivo da melhor maneira possível.

Porém, não só se deve colocar limites o tempo todo, mas saber a hora de confiar na educação que foi dada ao filho, deixando que ele tenha sua autonomia. Aos poucos e de acordo com cada idade, mas é importante que isso ocorra, para que aprendam e confiarem em si e comecem a ir testando essa nova independência. Essa é uma fase de transição para a vida adulta que, quando pulada (por pais muito controladores ou superprotetores) faz com que o sujeito se torne um adulto inseguro e frágil.

Dar limites faz parte da tarefa de educar, que não é só dar ou fazer tudo que os filhos querem, e sim abordar essa tarefa com compromisso, tendo a consciência de que estará influenciando uma pessoa que crescerá e atuará no mundo. Educar é ter disponibilidade, tempo e paciência, para que as pequenas lições sejam passadas a cada dia, não só por palavras, mas principalmente por exemplos, pois é assim que as crianças mais aprendem. Ao se dedicar assim ao filho, ele entenderá mais facilmente as “lições” passadas, pois sentirá a dedicação e o amor, diferente de quando se passa pouco tempo com eles, e quando está junto é só para dar ordens ou presentes.

Como visto, o limite não deve ser dado de maneira autoritária e sem diálogo, porque se não só fica a ordem não entendida, o que gera sentimento de injustiça, de impotência e de falta de amor. Além de gerar conseqüências negativas, como rebeldia ao fazer justamente o que sabe que será ruim, ou até mesmo se tornar uma pessoa com atitude desanimada, submissa e passiva diante da vida. Os limites ajudam a formar a estrutura da personalidade dos filhos e, por isso, sua introdução deve ser feita com todo cuidado.

Por Rafaella Santos Silveira

Psicóloga

CRP: 05/40907

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