A construção da persona e sua relação com a dificuldade de aprendizagem

A palavra persona deriva do termo latino máscara, usada pelos atores no teatro na antiguidade. Ela seria um papel social ou personagem vivido por um ator.  Na psicologia analítica, entende-se que ela começa a ser formada desde o início da vida e de acordo com as relações sociais, servindo para que a pessoa se adapte à sociedade. As primeiras relações sociais das crianças costumam ser com os pais e os professores, que a cada dia vão passando naturalmente seus valores a elas, ou seja, o que consideram bom ou ruim, certo ou errado. Isso dá aos pequenos uma boa noção do que fazer para ter a aprovação desses adultos exemplos, isso porque todos tendem a buscar aprovação social, o que não é diferente na infância. Dessa maneira, a criança personacomeçará a se comportar de acordo com o que considera que agradará aos adultos com quem convive, pois ela deseja ser amada e aprovada, e então sua persona começa a se constituir. Ela também deixará de fazer aquilo que gostaria de fazer, mas sabe que não agradaria. E com isso, sua sombra começa a se constituir. Todos, portanto, possuem personas e as usam para conviver em sociedade. É graças a ela que as pessoas se tolhem e não fazem tudo que gostariam, pois pensam nas consequências. Porém, assim como todos têm personas, consequentemente todos têm sombras, pois a sombra é formada por tudo aquilo que deixamos de fazer por não ser aceito na sociedade. Existem várias personas, uma para cada situação da vida. As mais comuns e conhecidas são as da família e do trabalho, ou seja, a persona do filho, da irmã, do pai, da mãe, da tia, da avó etc; e a persona do médico, do professor, do aluno, entre outros. Elas são importantes para que as pessoas convivam em sociedade e ocupem os papeis que devem ocupar no dia-a-dia, vivendo assim de forma adaptativa e saudável. Porém, também existem as personas atribuídas ao indivíduo pelos outros (devido a atitudes que a pessoa tenha ou de como ela se mostra ao mundo) ou por ele mesmo. Elas podem ser positivas ou negativas. Exemplos delas são: a do bom aluno, a do mau aluno, a do disciplinado, a do bagunceiro, a da ovelha negra, a da certinha, a da durona etc. Tanto no caso das personas positivas quanto no das negativas, existe o perigo delas se tornarem prisões para o sujeito, que passa a se enxergar sendo somente aquilo e tendo a obrigação de manter aquele personagem e aquela imagem (inclusive quando ela é negativa, pois muitas vezes não acredita que possa ser outra coisa além daquilo).

É importante transitar entre elas e não se prender excessivamente a uma ou algumas poucas, pois isso faz com que o sujeito fique vazio e se esqueça dos outros aspectos de si, pois somente uma ou algumas personas não contempla tudo que a pessoa é.

No caso de personas positivas, mesmo que sejam verdadeiras e não apenas uma imagem falsa criada conscientemente para “ser bem visto”, o sujeito corre o risco de se tornar arrogante e prepotente, esquecendo-se de seus defeitos e que também possui outros papeis na sociedade além daquele. Um exemplo disso é alguém que encontrou sucesso em sua profissão ou qualquer outra atividade e com isso não se relaciona mais como pessoa com seus amigos e familiares, mas sim como aquele profissional. Não é o pai falando, mas sim o medico, por exemplo. Não é o filho falando, mas sim o sabe tudo melhor aluno da sala. Isso pode trazer problemas de relacionamento para essas pessoas, que muitas vezes podem se ver sozinhas por ninguém querer mais conviver com elas.

No caso de personas negativas, a situação pode ser bastante dolorosa para quem as possui, isso porque, independente de quem tenha lhe colocado essa persona (os outros ou a própria pessoa), o indivíduo acaba ficando escravo daquilo, o que pode mexer bastante com sua autoestima, fazendo com que limite totalmente sua visão de si, passando a acreditar que é somente aquele aluno ruim, ou aquele filho problema, ou aquela mãe que não consegue ser boa profissional. Uma vez que isso acontece, fica difícil vislumbrar algo diferente, ou seja, a saída desse papel e o sucesso em outros mais positivos.

Em ambos os casos torna-se necessária a conscientização de tais personas e também a reflexão crítica sobre elas, para que se descubra se são verdadeiras ou não, se foram escolhidas ou impostas, se são necessárias ou não, se estão sendo positivas ou negativas e se são úteis ou destrutivas a si e ao convívio social. Após isso, as modificações necessários poderão começar a ser feitas.

Porém, se desde a infância professores, pais tios e avós, além de irmãos e colegas parassem de classificar os pequenos com estereótipos, bons ou ruins, eles poderiam crescer mais livres, e assumirem personas mais realistas, de acordo com suas personalidades e seu contexto de vida, e não de acordo com o que dizem dele. Pois isso muitas vezes funciona como uma profecia autorrealizadora, ou seja, eles podem vir a realizar o que falaram que eles seriam, o que não é muito difícil, uma vez que as crianças estão sempre buscando a aprovação e o amor dos adultos a sua volta, principalmente por eles serem os modelos que têm e por acreditarem que eles sempre estão certos.

No caso específico das escolas, os professores possuem importância fundamental no desenvolvimento da personalidade dos alunos e, consequentemente, atuam na formação da persona e da sombra, principalmente nos primeiros anos de escola, que é quando os alunos são menores e ainda estão no início desse desenvolvimento, absorvendo como esponjas todos os valores, ensinamentos e exemplos dos adultos que têm como modelos.  E como já foi visto, os professores são modelos quase tão importantes quanto os pais, e possuem, com isso, grande influência na vida e no desenvolvimento das crianças, influência essa que pode ser positiva ou negativa de acordo com o tipo de relacionamento e vínculo que se estabelece na díade professor-aluno. Esses primeiros anos também são mais importantes que os outros (quando as crianças estão maiores) porque nessa etapa da vida os adultos são mais vistos como perfeitos e detentores de toda a verdade, portanto, o que eles falam é lei e verdade absoluta, o que torna mais perigoso e de maior responsabilidade para o adulto, refletir sobre que tipo de coisa passa a eles.

Em toda sala de aula existem as crianças mais quietinhas, as mais bagunceiras, as extrovertidas, as tímidas etc. Só na relação que existe entre elas, muitas questões já surgem, pois dependendo do sucesso ou fracasso que encontrem nesse primeiro relacionamento grupal ou social, elas poderão desenvolver boa ou má autoestima, tornando-se mais ou menos confiantes em si e em sua capacidade de estabelecer vínculos e contatos com o mundo. Quando se pensa na relação dessas crianças com os professores, outras questões já surgem, pois terá importância para elas perceberem se são bem vistas ou não por aquela figura de autoridade e de amor (ou não), se são bem aceitas ou não, aprovadas ou não. Os professores também são seres humanos e muitas vezes não simpatizam com uma ou outra criança, ou ainda não têm paciência com certos tipos de alunos, mas demonstrar isso de forma a tratar tais crianças de maneira diferente é algo que deve ser evitado, pois estarão afetando profundamente todo o processo de desenvolvimento delas, principalmente das mais sensíveis. E essa relação pode ser capaz de criar ou aumentar dificuldades também em relação à aprendizagem, que se apresentarão como um bloqueio devido à insegurança em sua capacidade. Ou então, facilitarem a aprendizagem, nos casos em que existe uma boa relação e um bom vínculo entre professor e aluno, ou seja, nos casos em que aquele aluno se sente aceito e valorizado. Outra atitude nociva que os professores podem ter é expor em público as dificuldades dos alunos e trazer estereótipos através de comentários ou apelidos. Isso certamente contribuirá para a formação de personas negativas e com forte tendência a serem cristalizadas pelos alunos em suas vidas, tornando-se prisioneiros delas por muito tempo caso não percebam e ajam para mudar. Uma simples palavra é suficiente para que isso ocorra.  Como visto, a persona é muito importante para a entrada na sociedade e permanência nela de forma adaptativa, porém pode ser perigosa quando a pessoa se fixa em apenas uma persona, esquecendo-se de que é muito mais do que somente aquilo. E a sombra é formada por conseqüência da persona, contemplando tudo que foi negado na primeira. Porém, a sombra não tem só aspectos ruins e negativos, mas também aspectos positivos que podem ter sido igualmente reprimidos.  A conscientização de cada vez mais aspectos da persona e da sombra, assim como de outros aspectos inconscientes constituem grande riqueza para o ser humano, que passará a se conhecer e se entender melhor e com isso terá mais ferramentas para melhorar seus pontos fracos e seus relacionamentos, isso porque poderá utilizar sua energia psíquica para outras atividades mais complexas.

 

Rafaella Santos Silveira

Psicóloga

CRP: 05/40907

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