Autopunição como Forma de Afronta a Pais Extremamente Exigentes

bronca1É indispensável que os pais ajudem os filhos a serem autônomos e tomarem suas próprias atitudes frente à escolhas e adversidades que a vida traz diariamente. Por isso, é comum na infância os pais cobrarem tanto por boas notas e bom comportamento no colégio. Já que é lá que nos tornamos cidadãos e aprendemos a viver em sociedade.

Mas quando essa cobrança torna-se excessiva, ou mesmo desumana para essas crianças, é de se esperar que problemas surjam ainda na infância. Esses pais por inúmeros motivos pessoais – que não cabe discutir neste artigo – exigem excelência em notas de seus filhos, não aceitando muitas das vezes nenhum erro. Esses filhos, por sua vez, quando não atingem essas metas estabelecidas são castigados ou privados de alguma coisa por esses pais, com o intuito de puni-los pelo objetivo não alcançado.

Tendo ouvido que precisa tirar boas notas a vida toda, a criança internaliza isso como verdade e quando não consegue a nota esperada, sente-se angustiada e acredita estar errada, mesmo que a nota esteja na média. Dessa angústia nasce o sentimento de culpa por não atingir o ideal criado por seus pais.

O problema se agrava ainda mais quando inconscientemente nasce a necessidade dessa criança de se autopunir, já que não foi boa o suficiente nas notas. Todo e qualquer possível movimento que esse aluno possa fazer para melhorar na próxima prova desaparece no momento que ele tem a necessidade de se punir pelo erro.

Uma educação mais repressora tende a gerar atitudes reativas por parte dos filhos, como por exemplo: a autopunição (tema desse artigo), o desenvolvimento de doenças psicossomáticas, a necessidade de se machucar ou se cortar, traumas, medos, sentimentos de incapacidade, e inúmeras outras atitudes sempre negativas e prejudiciais à criança.

Essa atitude de se autopunir a que me refiro é inconsciente, ou seja, a criança não tem noção de que está tomando essas atitudes, elas simplesmente acontecem. O inconsciente é algo que não podemos alcançar, sendo assim não estamos conscientes sobre ele.

A autopunição pode aparecer de diversas formas (e estamos falando de temas ligados à escola): ele bloqueia o desenvolvimento da aprendizagem, ou seja, para de assimilar matérias novas, ou mesmo tem dificuldade de lembra-se das já estudadas; não estuda como necessário para fazer uma prova; esquece de fazer os trabalhos de casa; perde prazos de entrega de trabalhos; deixa questões em branco nas provas, dentre outras atitudes. Todas essas atitudes ao final vão culminar em uma nota baixa.

Um erro leva ao outro, nascendo assim um ciclo vicioso: os pais cobram muito, os filhos não atendem as expectativas e frustram-se, autopunem-se e não atingem as notas esperadas. É uma reprodução de frustações. Essas crianças fatalmente vão assumir uma postura pessimista diante da vida, já que vivem se esforçando e na visão de seus pais nunca é suficiente.

Essas atitudes nascem no ambiente familiar – é importante frisar que estamos falando de pais repressores e que exigem sempre mais de seus filhos, e não de pais que sadiamente incentivam seus filhos a melhorem suas notas e aprenderem coisas novas – e impedem o crescimento educacional normal esperado do aluno, afetando também, e muito, o psicológico dessa criança.

Quando a criança tem noção de que se autosabota em relação às notas, o caso fica ainda mais grave, pois gera tristeza por se dar conta (ser consciente) de que prejudicando os pais, ou seja, não lhes dando a nota que desejam, ela também se prejudica na escola podendo até repetir o ano. A apatia, a revolta e a falta de vontade de mudar essa situação impedem a melhora desse aluno.

Um trabalho de reeducação familiar é importante para que se entenda o que é válido e cabível para aquela criança em questão, no caso o filho desses pais tão exigentes. Lembrando que casa um é diferente, cada um tem seu próprio tempo e ritmo. Quando o aluno consegue tomar uma atitude de mudança para melhorar seu desempenho, ele tem que ter em mente que é uma melhora para si mesmo, em primeiro lugar, estudando e tirando boas notas, ele não perde o ano. Ele será o maior beneficiado com isso.

 

Roberta Bueno Gouveia

Psicóloga

CRP: 05/44207

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